
Não são apenas as palavras em português que irão surpreender o fã do trio inglês Portishead. A sonoridade do grupo que lançou as bases para o chamado trip-hop, também. Em Third, primeiro álbum de inéditas em 11 anos, o Portishead volta mais maduro, ousado e desafiador. É um disco instigante, e bem distante da ingenuidade dos dois primeiros discos.
Surgido em Bristol, Inglaterra, no começo dos anos 1990, o Portishead surpreendeu meio mundo com músicas tristes e sentimentais, apoiadas nos vocais melancólicos de Beth Gibbons e na habilidade dos músicos Adrian Utley e Geoff Barrow, que mesclavam as letras entoadas por Beth com bases que iam do jazz à batida de hip-hop (graças a Deus, eles desprezavam os vocais falados do gênero) em poucos – e lentos – acordes.
Dummy, lançado em 1994, é considerado um dos mais importantes álbuns daquela década. Seguiu-se o homônimo Portishead (1997), um pouco menos elogiado que seu antecessor, e a banda parou. Ainda gravaram um CD/DVD ao vivo (PNYC - live), de 1998, e cada um foi cuidar da sua vida – curioso é que de toda essa discografi a, apenas o DVD chegou a ser lançado no Brasil. Os três CDs permanecem inéditos por aqui.
A volta do Portishead era aguardada com ansiedade pelos antenados fãs, espalhados no mundo inteiro. Esses fãs, no entanto, irão sentir o impacto do novo trabalho, que sai no Brasil, em CD, via Universal. “O álbum é como assistir a Lost, uma viagem que nunca acaba”, resumiu Barrow.
De fato, o Portishead que se ouve em Third é bem mais viajandão. Tem os elementos que fizeram a fama do grupo, como as batidas e os vocais tristes de Gibbons. Mas os arranjos, mais eletrônicos do que nunca, povoam sentimentos mais angustiantes e sombrios. Trata-se de uma viajem ao lado escuro do grupo.
Musicalmente, Third é mais elaborado e musicalmente mais rico que seus antecessores. Uma áurea mística toma conta do trabalho, já na abertura. “Silence” tem, cravados, cinco minutos. Abre com os dizeres: “Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender. Você só ganha o que você merece”, assim mesmo, em português. A voz é de um professor de capoeira brasiliense, radicado em Bristol há quatro anos.
“Silence” parece instrumental. Os vocais de Beth entram lá na frente, e saem rapidinho.
As viagens com guitarra e sintetizadores se assemelham a um passeio de montanha-russa assombrada. Provoca uma sensação esquisita e, ao mesmo tempo, fascinante
para quem esperava ouvir algo como “Glory box”.
O disco segue com timbres inventivos e a música eletrônica sempre em primeiro plano, criando desde climas etéreos (“Hunter”) até angustiantes (“Plastic”, “We carry on”), carregados de uma sinfonia apocalíptica. “Deep Water” está estrategicamente no meio do CD. É quase uma vinheta acústica, apenas com vocal e banjo, que acalma o ouvinte para o mergulho seguinte, a Kraftwerkiana “Machine gun”, e o seguinte, a psicodélica “Small”, até terminar com “Threads”, uma das poucas que lembram os velhos tempos do grupo.
O Portishead soube voltar com estilo. Nada de recuar no tempo e trazer de volta velhas fórmulas. Soube ousar e acertou em cheio. Olhando hoje, Third não soa tão inventivo quanto Dummy foi, há quase 15 anos. Mas o Portishead maduro e futurista que poderíamos imaginar está lá, no CD prateado, marcando mais um ponto para uma banda que sabe aonde quer chegar.
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* Texto que eu fiz para a edição de domingo (29.junho.2008) no Jornal da Paraíba. Crédito da foto: Benoit Peverelli/Universal Music