segunda-feira, 28 de julho de 2008

Meu celular toca música


Este texto aqui marca a minha estréia na revista 'Acrópoles News', do meu amigo Marcos Luna. Foi concluído em 17 de junho e a revista, lançada na semana passada. Para quem ainda não viu a revista, aqui vai o texto. Divirtam-se!

Por esses dias, fui ao cinema ver ‘Três Vezes Amor’ (‘Definitely, Maybe’, no original). É dessas comédias românticas e simpáticas que a gente leva a namorada, come pipoca juntinho, sai para jantar uma lasanha com vinho e termina a noite aos beijos apaixonados. Mas o que chamou minha atenção mesmo no filme foi o fone bluetooth que o personagem principal, Will Hayes (vivido pelo ator Ryan Reynolds), usa logo na seqüência de abertura da fita.

Ao som da clássica “Everyday people”, do grupo Sly & Family Stone, ele caminha pelas ruas de Nova York. De onde vem a música? De uma iPod? De um MP3player comprado no Terceirão? De um discman? Ou de um walkman da Sanyo de cor azul anil (que acho que pararam de fabricar em 1989)? Nada disso, “apenas” do celular dele.


Não sei se o nobre leitor reparou, mas há tempos o celular deixou de ser um celular. Ou o celular que nós conhecemos, o “tijolão” da Motorola, ou o chique Startac (que também era da Motorola). O celular que liga e recebe chamadas. O de hoje é um dispositivo multimídia que os experts no assunto já andam dizendo que vai, num futuro muito breve, substituir o trambolho que você tem em casa e chama de computador.


É verdade. Os aparelhos de hoje tiram foto, filmam, passam e-mail, pagam conta, têm GPS, tocam música, passam filme e, veja que incrível, fazem e recebem chamadas! Tá, isso quando as operadoras deixam. Mas que fazem, fazem. Eu vi!
Aliás, quase todos os aparelhos modernos são assim. Veja só: o som do seu carro toca MP3, lê cartão de memória, tem entrada USB e ainda toca aqueles velhos e cafonas CDs que a gente compra nas lojas, com capinha, encarte e imposto! E o DVD da sua casa? Exibe fotos, toca MP3, passa Divx, faz conexão bluetooth e roda até os filmes que você aluga na locadora. Diga aí.

Vivemos numa era de tecnologia fantástica e assustadora. Fantástica por tudo que ela proporciona. A própria internet, por exemplo. No último dia 16 de junho, Marcone Ferreira, um dos nomes mais conceituados do jornalismo político paraibano, assistiu ao parto da primeira neta. Ele, em casa, a nora e o filho, em Brasília. Transmissão pela internet, em tempo real. Nada de gravação, ou edição. Emoções simultâneas entre todos os envolvidos, independente da distância – afinal, um poderia estar em Cajazeiras e outro na Molvânia (conhece?!) que seria a mesma coisa.


Assustadora porque, pela primeira vez desde que o macaco evoluiu nessa coisa chamada homem, ou desde que Adão e Eva comeram a tal maçã (que não era a Apple, diga-se de passagem), uma geração mais nova sabe mais que uma geração mais velha. Isso mesmo. Se antes o avô sentava para dar lições aos netinhos, agora é o contrário. “Vovô, senta aqui que eu vou lhe ensinar a tirar um extrato no INSS na internet”, diz a netinha de apenas 10 anos de idade. Eu mesmo tenho uma sobrinha de 6 que, enquanto a professora lhe ensinava as quatro operações matemáticas, ela ensinava a professora como fazer o download de uma música pela web. Parece coisa de louco, não parece?! Mas é verdade.


Diante de um quadro assim, não é de se estranhar que Will Hayes tenha botado dois pitoquinhos no ouvido e conectado, sem fios ao celular, passasse a ouvir música numa qualidade cristalina como água mineral. O que é mais curioso nisso é que, sem perceber, o celular fez as pessoas ouvirem mais músicas. Antes do celular, existia o discman. Antes do discman, o walkman. Antes do walkman, nada! E walkmen e discman sempre foram vistos como coisa de adolescente. Você já viu um sujeito todo paramentado no Centro da cidade com um walkman no ouvido? Eu não. E com os fones do celular? Vários!


A indústria da música, que se perdeu quando o disco deixou de ser vinil para ser CD, andava triste, cabisbaixa, até receber o extrato de que a venda de músicas para celulares no Brasil passou de míseros de 8,1 milhões em 2006 para 18,5 milhões em 2007 (um aumento de 127%) e continua subindo.


Associado a tudo isso, surge o novo iPhone, lançado em junho e com previsão de chegar às lojas agora em julho e, até o final do ano, no Brasil. A grande novidade da geringonça, que além de fotos, vídeos e internet, e faz e recebe ligações, é o preço: 200 dólares. Algo em torno de 340 reais quando eu estava escrevendo este texto, alguns dias atrás. Essa bagatela aí torna o iPod – esse nosso nem um pouco obscuro objeto de desejo – um troço obsoleto.


Sabe o iPod, o aparelhinho ultra-bacana que toca música e passa vídeo que sua irmã trouxe de Londres para o seu filho? Ou que você pediu pra aquele seu amigo trazer de Miami e fez o maior sucesso na escola? Pois é, pagou caro e agora está ultrapassado. O iPod Touche, que vem a ser um iPhone sem telefone, estava 50 dólares mais caros na semana de lançamento do celular da Apple, com os mesmos 8 GB e com menos tecnologia. E porque eu vou pagar mais caro por um aparelho mais limitado? A lógica do capitalismo diz que eu não vou. E não vou mesmo.


Acredito que em poucos anos, todo mundo vai ter um iPhone. Aqui mesmo, na Paraíba, com manual em português e tudo. Afinal, vai ficar baratinho, baratinho. Na Alemanha, veja só, o aparelhinho já é prometido por algumas operadoras pelo equivalente a R$ 2,50. Claro, nesse caso, elas faturam no plano. O fato é que o iPhone, com toda sua artimanha (afinal, ele só recebe música via um programa desenvolvido por seu fabricante) irá potencializar ainda mais a maneira com ouvimos música. E como vemos filmes, fotos e nos comunicamos. E, claro, como também vamos ficando malucos e surdos.


Eu vou ali botar meu celular para carregar que a bateria acabou.

Um comentário:

Gil de todos os dias disse...

Adoro suas letrinhas mas a melhor parte foi "vamos ficar loucos e surdos"!! Será mesmo o nosso fim né? ãh?? Eim?? o que vc disse?! =)