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domingo, 6 de julho de 2008

O fenômeno Teatro Mágico e a praga emo


Quem se apresenta hoje, em João Pessoa, é o grupo O Teatro Mágico.

Trata-se de uma trupe paulista que faz música, poesia, teatro e circo, tudo junto no palco, e se tornou um fenômeno pop teen. (leia a matéria que eu fiz para o Jornal da Paraíba sobre eles. Está no Vida & Arte).

Eu vi o primeiro show deles aqui, em João Pessoa, no ano passado. De lá para cá, eles fizeram uns três shows na cidade. Hoje é o quarto.

É bem produzido, aliás, muito bem produzido e tem um vocalista carismático. Mas não faz meu estilo não.

As letras são pobres, as músicas batidas e a poesia, chupada até o caroço do Cordel do Fogo Encantado (que, por sinal, também não me encanta lá essas coisas). O show parece coisa de EJC (Encontro de Jovens com Cristo), mas eu prefiro que a molecada veja o Teatro Mágico a esses emos que, peramordeus, são a coisa mais nefasta surgida na industria musical desde Milli Vanilli. Veja bem, minha crítica aos emos é no sentido puramente musical: som paupérrimo, letras feias, ridículas e completamente artificiais, pose demais, comercial demais etc.

Para mim, os emos faturam em cima de uma coisa bastante séria: as emoções humanas. E até agora, não conheci um emo que não tivesse nessa pelo sucesso, pela fama e pelo dinheiro. Eles simplesmente não vivem o que cantam e vendem gato por lebre. E me dá nos nervos vê todos esses adolescentes levarem isso tão à sério. Já vi shows de grupos emos que a garotada sofre, se acaba, se abala, corta o cabelo e fica deprimida e isso é simplesmente ridículo.

Quando o Joy Division fazia um som sombrio e deprê, aquilo era pra valer. Tanto que o vocalista, Ian Curtis, se matou aos vinte e poucos anos. E o Joy Division é uma banda cultuada até hoje. Os emos lá fora estão acabando. E não vai ficar ninguém para a posteridade.

A música emo é a pior música que nós estamos financiando hoje. É o emo e o forró dessas bandas tipo Ferro na Boneca e similares. O lixo do lixo.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Música patrocinada


A Trama foi a primeira gravadora "oficial" a aderir ao modelo de "discos patrocinados".

O disco novo de Tom Zé (foto) está disponível para download, com capiinha e tudo, totalmente de graça aqui. Quem banca é a VR Benefícios.

Abaixo, um texto que eu fiz sobre esse disco novo para o Jornal da Paraíba.

Ontem, o Jornal da Globo trouxe uma matéria muito legal sobre o tema. Veja aqui.

Novo disco de Tom Zé sai primeiro na web para download gratuito
Publicado originalmente no Vida & Arte do Jornal da Paraíba de 22 de junho de 2008. Autor: André Cananéa. Foto: Mila Maluhy/divulgação

A indústria fonográfica experimenta, com uma freqüência cada vez maior, modos alternativos de lançar álbuns de grandes artistas. E tudo pela internet. No ano passado, o Radiohead colocou seu novo disco na web para o ouvinte pagar o que quisesse. Depois, Gilberto Gil e Coldplay disponibilizaram seus álbuns para audição, inteirinhos e de graça. O Metallica anunciou esta semana que venderá seu próximo disco, Death Magnetic, em “pacotes” contendo músicas para download e até os velhos LPs. Agora chegou a vez de Tom Zé.

O músico baiano estréia o projeto ‘Álbum Virtual’ da gravadora Trama, que em novembro faz dez anos. Pelo projeto, eu, você ou qualquer pessoa, baixa Danç-Êh-Sá Ao Vivo de maneira legal, com qualidade, capa, letras, selo e ainda material bônus, como vídeos, sem desembolsar um centavo por isso. Tom Zé será remunerado pela VR Benefícios, patrocinador do disco.

“O tempo de permanência do álbum de Tom Zé na web será de três meses”, anuncia João Marcelo Bôscoli, presidente da Trama, que completa: “A Trama continua lançando os discos no formato físico. Mas como sempre acreditamos desde o começo, nossos tempos são multiformatos. Nós temos o CD, o DVD, o vinil e o formato digital, além dos celulares e os players dos arquivos digitais de música”.

A escolha não poderia ser mais apropriada. Tom Zé é afeito a colocar em prática os conceitos da cibercultura. Mostrou-se à frente desses novos tempos ao disponibilizar, junto com seu CD de 2000, Jogos de Armar, um disco bônus para que o fã pudesse recriar, a seu gosto, as músicas do álbum. Estava sintonizado com que os teóricos chamam de “a cultura do remix”.

Aos 71 anos de idade, Tom Zé lança um disco que não existe no meio fixo. “Eu venho de antes do vinil. Meu primeiro formato foi o cafezinho que eu dava para o músico ir tocar lá em casa. Depois veio o serviço de alto-falante e depois uma radiola que apareceu em Irará (BA) em 1957 para depois vir o vinil, o CD e agora o álbum virtual”, conta, por telefone ao JORNAL DA PARAÍBA. “É a sensação de ter saído da Idade Medieval para um tubo que, ao invés de ser a morte, é uma vida nova”, sintetiza.

Tom Zé teve sua primeira experiência com downloads no ano passado, através de páginas de artistas independentes. “Foi assim que conheci a Malu Magalhães”, exemplifica. Mas daí a ver tropicalista andando pelas ruas com um iPod são outros quinhentos. “Eu tenho horror à música”, rebate. “Como eu me considero o pior compositor do mundo, ouvir música, para mim, causa inveja”.

O baiano explica que trabalha no limite entre a música e o ruído. “A música que se compõe nos dias de hoje é a coisa mais cansativa do mundo”, opina.

No novo tabalho, ele apresenta a antítese da canção. “São músicas sem letras”, define. Danç-Êh-Sá Ao Vivo é experimental. Tom Zé brinca com fonemas e com a sonoridade dos instrumentos. “Esse disco tem a intenção de fazer uns buracos no tempo, onde a música acontece, e esses buracos parecerem espaços. Aqui, eu trabalho a dinâmica”, define. “E mesmo sendo um disco sem letras, nunca escrevi tanta letra política e social como neste disco sem palavras”.

Para ter o álbum novo de Tom Zé, é só acessar www.albumvirtual.trama.com.br, fazer um cadastro gratuito e baixar para o computador.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Prozac acabou com a música brega


Escrevi este texto para a edição do dia 14 de dezembro de 2006 do Jornal da Paraíba. Mexendo no baú, encontrei-o. Divirtam-se e comentem!

De uma coisa eu tenho certeza: o Prozac acabou com a música brega. Não a música do Roberto Carlos ou do Chitãozinho e Xororó, que são bregas. Mas o gênero “brega”, aquela música dor-de-cotovelo que sai do fundo do poço das angustias do ser traído, enganado, iludido. Um mundo onde Reginaldo Rossi é apenas entretenimento, uma caricatura superficial dos dramas que perseguem o ser humano desde que Eva trocou Adão por uma maçã (foi isso, não foi?!) no primeiro caso de adultério da história da humanidade.

Dia desses, dei um tempo no acid jazz, downbeat e alt-country para mergulhar nesse universo triste e melancólico, de arranjos pobres, chinfrim, mal tocadas notas de bolero e samba-canção. Saí perambulando pelas ruas do Centro de João Pessoa em busca de LPs de Agnaldo Timóteo, Augusto César, Carlos Alexandre, Diana, Evaldo Braga e Waldick Soriano, entre outros. Tirei a poeira dos velhos LPs e fui ouví-los com atenção. Nossa, como esses caras sofriam de verdade! Como esses caras amavam, apaixonavam-se, e suas dores viravam verdadeiros lamentos bergmanianos, destilados em versos como: “Amor proibido / A minha maneira é autenticidade / Vou ficar contra o mundo / Já ficou entendido / Que amor como o meu / É amor de verdade”. Isso na excelência vocal de Timóteo, pontuado por backing vocals e violinos, que se não são um primor erudito, emulam uma certa elegância kitsch. Uma espontaneidade perdida ao longo das últimas décadas.

O Prozac, a indústria e os relacionamento “fastfood” acabaram com a boa música brega. Acabaram com o choro e com a vela. Quem são os “cornos” dos últimos 10, 20 anos? Não saberia dizer nenhum que caísse no gosto popular com tamanha autenticidade como dos nossos heróis de antigamente. A Música Popular Brasileira não criou mais nenhum ícone brega, nenhum novo Carlos André, Paulo Sérgio, Lindomar Castilho. A música romântica se tornou baba, profissional demais. Perdeu a inspiração. Não há mais clássicos como “Monotonia” (Amado Batista), como a penosa “Vontade de voltar” (Balthazar) e a debochada “Já troquei você por outra” (Carlos Alexandre), sem falar nos hinos “A cruz que carrego” (Evaldo Braga) e “Você não me ensinou a te esquecer” (na voz chorosa de Fernando Mendes, claro). E que fim levaram cantores como Altemar Dutra, o próprio Evaldo Braga e Nelson Ned, com suas vozes encorpadas e seus trejeitos de barítono?

Esse negocio do Prozac é fogo. Você acha mesmo que Genival Santos teria feito “Eu não sou brinquedo” se fosse adepto do anti-depressivo? Ou que Amado Batista teria composto “Amor perfeito” numa euforia química? Quem toma Prozac, vira Bruno & Marrone. A música brasileira sente falta desses temas viscerais, essas coisas que vêm das entranhas, da natureza do homem que se vê desiludido com a amada, a quem tanto dedicou carinho, atenção e respeito.

E aí como profetizou Bartô Galeno, da época de ouro da música brega, “Só lembranças”... Enquanto isso, sento num banquinho no Mercado Central, peço uma meiota e anuncio o playlist com meus dez bregas favoritos: “Apenas um trago” (José Ribeiro), “Quem é” (Agnaldo Timóteo), “Eu não sou lixo” (Evaldo Braga), “Monotonia” (Amado Batista), “Tudo passará” (Nelson Ned), “Castiga-me” (Roberto Muller), “Agora quem parte sou eu” (Paulo Sérgio), “Quem ri por último, ri melhor” (Ronaldo Adriano), “Você é doida demais” (Lindomar Castilho) e, para fechar, “Esta noite eu queria que o mundo acabasse”, na voz de Waldick Soriano. Tin-tin!