Depois de um plantão no sábado, só me restava afundar nos livros e nos DVDs.
No sábado, fui até uma locadora e peguei um pacotão. Poxa, há quanto tempo não pegava cinco filmes no sábado para devolver na quarta-feira. Que nem carnaval.
O negócio é o seguinte: terça-feira é aniversário de João Pessoa, portanto, feriado.
Como na cidade, quem não é comerciante, é funcionário público, a cidade vive um clima de feriadão.
A locadora é do seu Vianey, a Kauai, na Esquina 200, em Tambaú, na orla de João Pessoa. Seu Vianey é um carioca que veio para a Paraíba em 1980, abriu uma loja de roupas de surf, depois deixou as roupas de lado e passou a alugar CDs – talvez, a única locadora de CDs da cidade, e fez bastante sucesso - e agora aposta em DVDs de arte. Nada de
Homem-Aranha e blockbusters. Lá o negócio é
La Nave Va,
Morangos Silvestres e
O Anjo Exterminador.
Acertou na mosca. Acabou se tornando referência para um nicho de mercado sem concorrência na cidade – porque as outras locadoras dormiram no ponto – e passou a investir em filmes para um público que preza pela qualidade, o fino trato e, mais importante, não vai até o centro comprar DVDs piratas.
Afinal, no mundo dos contrabandistas de DVD, quem vai se interessar em vender
Persona na banquinha do camelô?
Lá peguei
Mephisto, aquele filme alemão da virada dos anos 1970 para 1980, e
O Discreto Charme da Burquesia, de Bunõel, que há anos eu tento ver, mais Piratas da Informática, um filme que saiu pela Warner inspirado em Bill Gates e Steve Jobs. Resolvi pagar pra ver (literalmente).
Também peguei neste fim de semana
Onde Os Fracos Não Têm Vez, o grande vencedor do Oscar que, pasmem, eu ainda não tinha visto.
Mephisto e
Piratas ficaram para o feriadão. Mas o filme do Buñoel eu acabei de ver, encerrando a sessão do fim de semana.
Alias, entre os filmes alugados, comprados e emprestados pelos amigos da internet, que gentilmente disponibilizam filmes que ainda não saíram no Brasil para download, ripados de DVD e com legendas até descentes em português, vi os seguintes filmes:
Onde Os Fracos Não Têm Vez – Sim, é o filmaço que todo mundo havia me dito que era. Diálogos dilaceradores, com a interpretação magistral de Javier Bardem (na foto - que, com muita justiça, levou o Oscar) e com seqüências de tensão mais firme que um cabo de aço esticado, fazem deste um dos grandes filmes que eu vi este ano. Afinal, é dos Coen, e se é dos Coen, é bom.
Uma Cilada Para Roger Rabbit – Fita de 1988 dirigida por Robert Zemeckis (
De Volta Para o Futuro), é aquele divertido policial noir que mistura gente de carne-e-osso, como Bob Hoskins, com desnhos animados. É que minha sobrinha veio passar o domingo aqui em casa e a gente acabou assistindo essa deliciosa aventura. E mesmo depois de 20 anos, os truques de fazer animação e gente de verdade interagirem não envelheceram nem um dia. Quem não viu, tem que ver. Quem já viu, veja como é gostoso revê-lo num domingo à tarde com a família. Tem disponível nas locadoras.
O Discreto Charme da Burguesia – Cheguei ao papa do surrealismo através de um dos meus diretores favoritos: David Lynch. Aqui, Bunõel faz uma crítica ácida à classe média francesa dos anos 1970 em seqüencias que parecem não ter pé, nem cabeça. Mas não é nada disso. O cara era realmente um mestre e bota para fora grandes sacadas. Um bom momento: dois casais chegaram para jantar numa espécie de cantina. O lugar tá vazio e os garçons se comportam de modo estranho. Daqui a pouco, vê-se que o corpo do dono do lugar, que morrera a pouco, está sendo velado. São os absurdos surrealistas de Bunõel servindo perfeitamente à sétima arte.
The Son of Rambow – Esse tava no HD. Sensacional filme inglês, ainda inédito nos cinemas (acho que vai sair direto em DVD, se sair) foi o que eu mais gostei. Numa rigorosa escola católica da Inglaterra dos anos 1980, dessas que os alunos usam terno e gravata, dois estudantes beeeem diferentes se tornam amigos: um é um delinqüente, odiado pelos professores, que vive de castigo. O outro, integra um grupo religioso extremista, desses xiitas que não pode isso, não pode aquilo. O primeiro leva escondido uma câmera pro cinema e filme
Rambo – Programado Para Matar. O outro, numa ida a casa do primeiro (tô colocando dessa maneira porque não lembro o nome dos personagens), acabou assistindo
Rambo e pirou na batatinha: botou na cabeça que era filho pro próprio
Rambo (que por questões de direitos, aqui é tratado como Rambow, apesar do filme contar com a simpatia de Stallone) e decidiu fazer um filme com o coleguinha, dessas fitas caseiras e bem amadoras. Esqueça
Rambo ou Stallone, que só servem para dar o contraponto cômico a este drama. Com dois atores-mirins maravilhosos e um roteiro cheio de sacadas, fora a trilha 80 com Depeche Mode e Cure,
The Son Of Rambow é um filme sobre a amizade de dois garotos. Talvez, o melhor filme sobre o tema desde
Conta Comigo (
Stand By Me). Se tiver chance, vá atrás desse filme. Com certeza, um dos cinco melhores filmes que eu vi este ano.
* * *
Enquanto escrevo esse texto, Lilian assiste ao divertido clássico
Febre de Juventude, do mesmo Robert Zemeckis de
Roger Rabbit, lançado em 1978. O filme, que já passou várias vezes na Sessão da Tarde, conta a história de um grupo de fãs dos Beatles. Infelizmente, permanece inédito em DVD no Brasil.